7.8.18

O silêncio “ensudecedor” da Sky News


No dia 28 de maio enviei um email para a “Sky News Library Sales”, solicitando autorização para reproduzir dois vídeos que não estão disponíveis na Internet, de dois noticiários de Martin Brunt e Andrew Wilson, no dia 11 de setembro de 2007.
Tive uma resposta rápida, no dia seguinte, de Matt Reynolds, explicando-me que o direito de reproduzir esses vídeos, por um ano, no meu blog, me custaria 750 libras. Enviei uma indicação detalhada sobre os noticiários que pretendia, num email, no passado dia 1 de Junho.

No primeiro noticiário, Andrew Wilson dizia, no dia 11 de Setembro de 2007, em frente ao edifício do Tribunal de Portimão, que “Hoje, a polícia espanhola enviou os arquivos da investigação do desaparecimento de Madeleine McCann ao magistrado responsável pelo caso. "
O segundo noticiário foi transmitido às 4 horas da manhã de 12 de setembro de 2007, e foi a confissão pública de Martin Brunt de que a sua “história em primeira mão” sobre o facto de a “polícia portuguesa” já ter os resultados das análises feitas pelo Forensic Science Service, que indicavam a existência de “três amostras com um resultado compatível a 100% com o DNA de Madelene McCann”, uma delas de uma amostra tirada do porta-malas do Renault Scenic, não era verdadeira (“was burnt out”... foi a expressão utilizada.

Até agora, não recebi nenhuma resposta do Sr. Matt Reynolds ou de qualquer pessoa da “Sky News Library Sales”. Enviei mais dois e-mails, nos dois últimos dias, solictando uma resposta ao meu pedido do dia 1 de Junho. Até hoje, nada. Apenas um slêncio “ensurdecedor”...

6.7.18

Algumas histórias pessoais da minha vida como jornalista (e mais do que isso) e um pedido


Em português, temos uma palavra para definir um tipo diferente de sentimento relacionado com medo: “receio”. A palavra é um pouco mais forte que “preocupação”. Eu posso ter algo mais do que preocupação sobre o futuro do meu trabalho, se souber que o jornal onde trabalho está em má situação financeira. Mas terei medo se souber que já existe uma lista de uma dúzia de jornalistas que será demitida dentro em breve. “Receio” é mais do que “preocupação”, mas não é “medo”. Falando sobre o medo, sempre tenho em mente um ditado popular, comum na pequena e pobre aldeia rural onde o meu pai nasceu e que eu o ouvi mencionar várias vezes: “Aqueles que morrem de medo, são enterrados em m***a” .

Tenho medo de apenas três coisas: uma morte lenta e dolorosa, devido a uma doença como o cancro; uma doença longa e mentalmente incapacitante como Parkinson ou Alzheimer; e dos impostos, outra das poucas certezas da vida, como supostamente disse Mark Twain (Benjamin Franklin foi o primeiro a referir essas duas coisas como inevitáveis). Há muitos anos, decidi - e é uma decisão que nunca mudarei - que nas duas primeiras situações que menciono, escolho o momento em que partirei. Não vou esperar que a “Ceifeira” me leve e não me importa que a eutanásia não seja autorizada em Portugal. Sobre os impostos, bem, a única maneira de escapar de pagar é a morte ...

Durante minha carreira como jornalista, tive algumas ocasiões em que fui ameaçado, duas delas bastante sérias. Eu não estava exatamente preocupado com essas ameaças, mas tive algum receio. A primeira vez que fui ameaçado seriamente - e minha família também foi incluída - foi em Macau, quando Rocha Vieira era governador (o homem que terminou o seu mandato, em 1999, envolvido num escândalo de uma transferência de dinheiro, enquanto ainda era governador, para uma fundação privada em Lisboa, a ser presidida por ele próprio). O general Rocha Vieira era um homem que tinha uma dificuldade extrema em aceitar alguns princípios básicos, em matéria de direitos, comuns na Europa desde o século XVIII: liberdade de opinião, expressão e, acima de tudo, liberdade de Imprensa. Quando saiu de Macau, em 1999, após nove anos de intimidação e ameaças contra os jornais portugueses críticos da sua adminstração, houve um suspiro de alívio de todos os jornalistas portugueses que também acolheram calorosamente o primeiro governador nomeado por Pequim, Edmund Ho, um estadista, um verdadeiro cavalheiro e um sincero amigo dos jornalistas e da comunidade portuguesa local.

Cartoon publicado pelo "Ou Mun", o maior jornal de língua chinesa de Macau
Os dois homens tinham uma atitude completamente oposta em relação às notícias e à liberdade de Imprensa. O general Rocha Vieira detestava todos aqueles que ousavam criticar o seu governo e não faziam nenhum esforço para disfarçá-lo. Edmund Ho era um homem tão educado que nunca demonstrou qualquer atitude menos simpática, em relação a qualquer jornalista ou jornal, não importava quão críticos estes fosse para com o seu governo. É uma ironia que o agora tenente-general na reserva Rocha Vieira seja empregado de uma empresa estatal chinesa, “Três Gargantas”, que comprou a EDP, o antigo fornecedor de eletricidade estatal em Portugal e o nomeou seu representante oficial no Conselho de Administração da empresa - uma demonstração muito rara de confiança num "gweilo" ("diabo estrangeiro", uma expressão comum e depreciativa em chinês para se referir a ocidentais) do governo chinês. Tanto quanto sei, é a primeira vez, desde 1807 até hoje, que um alto oficial do Exército Português trabalha para um governo estrangeiro. Durante as “Guerras Napoleónicas”, vários oficiais do Exército Português fizeram parte do exército invasor que o imperador francês enviou, naquele ano, para ocupar o país.

Desde 1995, quando me tornei editor de um pequeno jornal diário português em Macau, percebi rapidamente que era impossível haver uma relação civilizada entre o Governador e o jornal “Gazeta Macaense”. O lema de seu governo quanto à Comunicação Social, como um dos seus assessores de Imprensa disse, numa entrevista ao jornal “Tribuna de Macau”, era claro: “Mais do que jornalistas, precisamos de 'militantes' do desígnio nacional”. Isso lembrou-me a frase de Samuel Johnson: “O patriotismo é o último refúgio dos canalhas”. Quando não há nenhuma razão política, legal, moral ou ética para justificar as acções de um governo, há o hábito - não aceitável nos países democráticos - de mencionar o “interesse superior da nação”, uma frase muito comum dos 48 anos da ditadura de Salazar.

Tornei-me então numa espécie de “Inimigo Público nº 1” do General e, em menos de dois anos, ele fez um acordo com o dono do jornal, José Manuel Rodrigues, um advogado macaense, actualmente presidente da “Associação das Comunidades Macaenses”. José Manuel Rodrigues fechou o jornal, demitiu todos os jornalistas (éramos apenas dois..) de uma forma que foi um exemplo de uma das atitudes mais cobardes (e reveladoras de uma incrível baixeza de carácter) que já vi em toda a minha vida: deu ordens para mudar as fechaduras da Redacção do jornal e, quando lá fui, numa tarde de domingo, para começar a preparar a edição do dia seguinte, a minha chave não funcionou. Liguei-lhe para dizer que havia um problema com a fechadura e teria que contactar alguém para consertá-la. Foi então que ele me disse que tinha decidido fechar o jornal, para “reestruturação” e que estávamos todos despedidos. Dois meses depois, ele foi nomeado deputado da Assembleia Legislativa (a versão local mitigada de um Parlamento), onde o Governador tinha a competência para nomear cinco deputados.


De 1993 a 1997, a minha família em Macau (a minha mulher, o meu irmão e a minha cunhada, e até minha primeira ex-esposa...) foram perseguidos e indiretamente ameaçados, numa tentativa de me fazer mudar a linha editorial do jornal, inicialmente, e depois tentar fazer com que eu abandonasse Macau. Mesmo trabalhando como jornalista freelancer, eu era uma fonte de problemas para o General. O juiz Farinha Ribeiras, um admirador público de Mussolini, Franco e Salazar (como ele próprio afirmou, em entrevista à TDM, a televisão de Macau) que apoiou decisões polémicas sobre a extradição de suspeitos de Macaupara a China, onde podiam ser condenados à morte, em 1993 foi nomeado Juiz-Presidente do Supremo Tribunal de Macau (“escolhido” e nomeado pelo General). Em 1994, o juiz Farinha Ribeiras apresentou 38 queixas-crime, contra mim, como editor do jornal, por difamação. Eu não estava sozinho, porque ele também levou a "Amnistia Internacional" a tribunal, queixando-se igualmente de ter sido difamado pela organização, em 1994.

Farinha Ribeiras disse, na entrevista à TDM, logo na primeira semana em que chegou a Macau, entre muitas outras coisas absurdas, que “os italianos ainda sentiam saudades dos tempos de Mussolini, porque os comboios funcionavam a horas”. Lembro-me que fizémos um comentário no jornal, recordando-lhe que essa regularidade não era resultado do bom governo de Mussolini, mas sim uma exigência dos seus aliados nazis, que queriam que os comboios destinados a Treblinka, Auschwitz e outros campos da morte chegassem a tempo e horas. O juiz Farinha Ribeiras, depois de apresentar as 38 queixas-crime, fez um pedido formal ao tribunal para detido preventivamente, até ao meu julgamento, para evitar que "fugisse" de Macau. Foi uma má ideia, já que tanto a organização americana “Committee to Protect Journalists” (“Comité para Proteger os Jornalistas”) como a “Amnistia Internacional”, decidiram agir, em minha defesa, com esta segunda organização a enviar um aviso às autoridades de Macau, referindo que, se eu fosse preso, naquelas circunstâncias, a “Amnistia Internacional” colocaria o meu nome na sua lista de "Prisioneiros de Consciência".

O juiz Farinha Ribeiras (1º à direita), um admirador confesso de Salazar, ao lado do Presidente da República, Mário Soares, um ex-preso político durante o regime salazarista, numa visita presidencial a Macau
 O “Committee to Protect Journalists” convidou-me – o que foi uma honra, sem dúvida - a escrever o prefácio de sua edição de 1995 do “Index of Censorship”, um livro sobre censura, país por país, em todo o mundo. Como jornalista freelancer, consegui alguns documentos internos, em 1995, da TDM, a emissora de TV propriedade do governo local, com instruções para que os jornalistas ignorassem as manifestações de grupos pró-democracia no aniversário de 4 de Junho dos eventos de Tiananmen. Publiquei esses documentos internos e as reacções, mesmo na imprensa portuguesa, em Lisboa, foram fortes. Em 1997, estava um pouco cansado de estar quase desempregado, nos dois anos anteriores, pois as minhas histórias como jornalista freelancer encontravam cada vez menos espaço para serem publicadas em Macau. Os 24 quilômetros quadrados de Macau eram, de facto, uma área muito pequena para mim e para o General compartilharmos. Decidi então voltar para Portugal, onde consegui emprego, dois meses depois de chegar.

A segunda vez que fui ameaçado (e também tive algum receio, mas não medo) foi entre 2003 e 2004, quando publiquei no jornal “O Independente” várias histórias, depois de muitos meses de investigação, sobre as atividades de um grupo muçulmano fundamentalista, o Tablighi Jamaat - um grupo sobre o qual nunca se tinha ouvido falar, em Portugal, até então, e nenhum jornal tinha jamais mencionado, sequer, a sua presença no nosso país. Os Tablighi Jamaat tinham sido, por exemplo, banidos na Rússia, em 2009. Consegui explicar aos leitores do semanário “O Independente” (o segundo maior, em Portugal, na altura) não só que eles estavam aqui, mas também a sua dimensão, a vasta rede que tinham em todo o país e o facto de controlarem a maioria das associações e comunidades muçulmanas, incluindo a mais importante, a “Comunidade Islâmica de Lisboa”.

Os Tablighi Jamaat faziam isso sempre de uma forma que se pode dizer que era mais secreta do que discreta. Ninguém nunca viu nenhum dos seus líderes na primeira fila de qualquer cerimónia ou situação pública em que não-muçulmanos ou jornalistas estivessem presentes. Os problemas (para mim) começaram realmente quando publiquei uma foto de seu líder “operacional”, Esmael Loonat, um homem que, na época, já estava no “radar” da Unidade de Contra-Terrorismo da Polícia Judiciária.
Durante meses, fui alvo de ameaças, mesmo contra a minha família em Macau, em telefonemas que, por exemplo, mencionavam detalhes como o nome do meu filho de sete anos, que vivia em Macau com a mãe, o local exacto da escola estava e quem costumava ir levá-lo e buscá-lo à escola. A minha resposta a esses telefonemas foi sempre foi muito curta e não posso reproduzi-la aqui.


Poucos meses depois, os Tablighi Jamaat mudaram a sua política de "relações públicas" e decidiram “apresentar-se” à opinião pública portuguesa, através de várias entrevistas com jornais e estações de TV, como uma organização muçulmana muito humilde, pacífica e simples, que apenas seguia uma interpretação um pouco mais rigorosa do Alcorão. Até mesmo o “líder operacional” deu entrevistas e permitiu que fizessem algo completamente proibido, um pecado para o Tablighi Jamaat: tirar fotos de si próprio. Só para se ter uma idéia, nenhuma família que faça parte dos Tablighi Jamaat tem um aparelho de TV em casa, pois a televisão é considerada uma “fonte de conspurcação dos ideais e princípios muçulmanos” - uma citação de “Al-Madinah”, uma revista mensal do grupo, em português, a que tive acesso, na altura. Com essa mudança de política, todas as ameaças contra mim simplesmente desapareceram.

De 2008 até ao ano passado, vivi em Macau, trabalhando como jornalista e também como tradutor freelance Inglês/Português, especializado em Direito e Assuntos Jurídicos. Voltei a Portugal em Março de 2017, após o meu casamento de 23 anos ter terminado, de forma pacífica e com uma decisão de divórcio por acordo mútuo. Tive que começar (e eu ainda estou no princípio disso...) quase do zero, no meu trabalho como jornalista e tradutor. Fui para Macau em 1996, voltei a Portugal em 1997, regressei a Macau em 2008. Assim, nos últimos nove anos, estive fora do jornalismo, em Portugal. Muitos dos colegas que costumavam correr lado a lado comigo, perseguindo políticos, gravador na mão, a fazer perguntas, há muitos anos, agora são directores e editores em jornais, estações de TV e rádios.

Os Media tradicionais em Portugal, principalmente os jornais, estão numa situação desconfortável: têm um pé no lado esquerdo (as edições em papel) de um desfiladeiro profundo e o outro no lado direito (as edições online), com as suas “pernas” a “esticarem-se”, cada vez mais. As edições impressas e a publicidade, com algumas excepções, não produzem receitas suficientes para pagar salários e custos de produção. As edições online têm apenas uma receita residual, que mal cobre os custos - e isso é porque “canibalizam” as edições em papel e têm apenas cinco ou seis funcionários, a maioria deles encarregada da gestão técnico dos sites.

Mais de uma dezena de jornais fecharam em Portugal nos últimos 10 anos. Outros reduziram o pessoal e, em alguns casos, demitiram mais de um terço do jornalistas que trabalhavam lá. Entre 2007 e 2015, a profissão perdeu cerca de 1.200 jornalistas. Nesse mesmo tempo, houve despedimentos colectivos em meia-dúzia de jornais, que afectaram mais de uma centena de profissionais. Os jornais preenchem as lacunas com a contratação de dezenas de jovens, recém-saídos da universidade, dando-lhes um estágio de seis meses, geralmente não pago, com apenas um pequeno subsídio para refeições e um passe para os transportes públicos. Após os seis meses, vão-se embora e é contratado outro grupo de estagiários. Tive muitos contatos com velhos amigos, jornalistas e todos me disseram o mesmo: ninguém está a contratar jornalistas com experiência e currículo. Os estagiários são a única opção autorizada pela administração de jornais.

Este novo começo, para mim, aos 60 anos, não tem sido fácil. Jornalista freelancer, hoje em dia, em Portugal é um eufemismo para “desempregado”, pois o mercado para este tipo de trabalho é quase inexistente e o pagamento é muito baixo. As traduções de Inglês para Português têm sido minha principal fonte de rendimentos, para sobreviver. As coisas tornaram-se mais difíceis, depois do divórcio inicial por mútuo acordo ter “mudado” para um processo litigioso, mais caro do que o habitual, uma vez que é necessário um advogado e o processo decorre em passos muito lentos (e tempo é dinheiro, para advogados). …) através de um canal jurídico complexo, entre dois sistemas judiciais distantes e diferentes - Macau e Portugal.

Como mencionei no título deste post, seria sobre algumas histórias da minha vida como jornalista e algo mais - alguns detalhes sobre minha vida pessoal. Também tenho um pedido para fazer e isso é algo difícil e embaraçoso para mim. Como já devem ter reparado, no topo da coluna do lado direito dos meus blogues, tenho um botão "Donate", do PayPal e também o IBAN da minha conta bancária. Qualquer ajuda, por menor que seja, dos meus leitores, que considerem que tenho feito um trabalho jornalístico razoável cobrindo o caso do desaparecimento de Maddie, será muito bem-vinda.

Uma história quase esquecida: “Que se f**** os McCann”



No dia 13 de Janeiro de 2010, Gonçalo Amaral compareceu a uma audiência sobre o recurso que interpôs contra a decisão de um tribunal de 1ª instância que o condenou a pagar a Kate e Gerry McCanns meio milhão de euros, por danos por difamação e proibiu a venda do seu livro. Os pais de Madeleine McCanns argumentaram que o Gonçalo Amaral, no livro “A verdade da mentira”, os acusou de fingirem o seqüestro da filha. Em Fevereiro de 2017, o Supremo Tribunal de Portugal, numa decisão final, revogou a ordem de indemnização e manteve uma decisão anterior de anular a proibição da venda do livro.

Quando a sessão do tribunal terminou e o Gonçalo Amaral saiu, um repórter da BBC East Midlands fez-lhe uma pergunta. O ex-coordenador-criminal da PJ respondeu em português: “Fala com os McCanns”. Mike O'Sullivan, o jornalista, entrou um directo no noticiário da BBC, relatando que Gonçalo Amaral tinha dito "F *** the McCanns", em Inglês, e reproduziu a gravação da sua resposta com um "Beep", em vez da primeira palavra.



O jornalista do BBC acrescentou que, tanto o seu cameraman como e seu técnico de som confirmaram que ouviram claramente a palavra “F***” in Inglês. Nenhum outro jornalista britânico presente no local ouviu essa palavra. Martin Brunt, da Sky News, que estava lá e escreveu alguns posts no seu blog “Uma Vida de Crime” insultando todos os jornalistas portugueses (classificando como “colhoes” para as reportagens publicadas pela Imprensa Portuguesa sobre o desaparecimento de Maddie) saiu em defesa de Gonçalo Amaral.




"My New Best Friend" (“O Meu Novo Melhor Amigo”) foi o título do seu post, em 15 de janeiro. “Deixo aqui uma observação sobre o meu novo melhor amigo, Gonçalo Amaral. Começo a achar que o ex-detetive do caso Madeleine McCann tem razão quando protesta contra o facto de os Media britânicos o atacarem. O meu “colega Beeb” acusou-o de dizer “F*** the McCanns” num suposto momento de descontrole, quando todos nós o seguíamos, à saída do tribunal”, escreveu Martin Brunt..

O espcialista em crime da Sky News terminou o post com um comentário irónico: “O que ele realmente disse foi “Fala com McCanns ”, (em Português). Todos nós, através dos nossos intérpretes, entendemos perfeitamente o que ele disse. Acho que ele precisa de um bom advogado. Isabel Duarte pode estar livre, quando acabar de o perseguir devido à publicação do seu livro sobre o caso Madeleine.

 O "Daily Star", em 15 de Janeiro, foi o único jornal a publicar a verdade (algo não muito comum naquele jornal): “Os responsáveis da BBC desencadearam uma polémica, depois de acusar Gonçalo Amaral de uma tirada de quatro letras contra Kate e Gerry McCann, insistindo que o ex-detetive disse: "F *** the McCanns", quando questionado por um repórter da BBC se ele não achava que suas alegações eram ofensivas para o casal. Mas o que Gonçalo Amaral disse ontem foi: "Fala com os McCann” (em Português).

A gravação foi tão clara que, como o "Daily Star" refere, "as empresas de TV rivais da BBC se recusaram a transmitir a gravação, depois de os seus tradutores a analisarem. Mas a gravação foi transmitida pela BBC de East Midlands. "




Os jornais britânicos consideraram a história falsa da BBC como garantida e fizeram manchetes com ela. Tom Wells e Antonella Lazzeri escreveram em “The Sun”: “Polícia repugnante: F *** the McCanns”, em 14 de janeiro. “O ex-policia que liderou a investigação de Madeleine McCann provocou um novo escândalo, na noite passada, depois de lançar uma violenta diatribe de quatro letras contra os pais da criança desaparecida. O descarado Gonçalo Amaral 'cuspiu' (“spat”), "F*** the McCanns" quando questionado por um repórter da TV BBC se não ele achava que suas violentas declarações sobre Maddie estavam a afectá-los (...) Amaral, despedido depois de liderar a fracassada investigação inicial sobre o desaparecimento de Maddie em 2007, descontrolou-se antes de entrar num tribunal, em Lisboa. ”




Martin Fricker, em “The Mirror” publicou uma história com este título: “Vergonhoso detetive português numa 'explosão' de quatro letras contra Kate e Gerry McCanns”. Referindo que Gonçalo Amaral foi questionado por outro repórter, Martin Fricker escreveu: “O vergonhoso detetive Gonçalo Amaral 'desfez' Kate e Gerry McCanns com uma explosão 'desbocada'. O ex-policia, questionado sobre se seu livro sobre Madeleine não estava a afectar o casal 'ladrou' (“barked”): "No, f *** the McCann". Amaral riu-se enquanto se afastava, apesar de a sua frase, a insultar um casal que tem sofrido tanta angústia nos últimos anos, ter sido gravada pelas câmaras de televisão. O repórter Mike O'Sullivan afirmou: 'Fiquei espantado, e também o meu cameraman, que um ex-policia deste nível pudesse ter usado uma expressão daquelas contra os McCann. Foi realmente grosseiro'. Um amigo da família de Kate e Gerry, de Rothley, Leics, acrescentou: ' É vergonhoso e dá uma verdadeira medida do tipo de homem (que é Gonçalo Amaral)”.




Também no “The Mirror”, um pedaço de lixo chamado Tony Parsons, racista e xenófobo, insultou tudo e todos, como é seu hábito, sempre que escreve sobre Portugal e a polícia portuguesa: “Polícia de Maddie McCann acrescenta insulto à injúria” foi o título da sua coluna. “Se, como foi sugerido, em Portugal houve um 'circo dos Media' ”em torno do desaparecimento de Madeleine McCanns, então são os policias portugueses que são os palhaços. Palhaços cruéis, estúpidos e asquerosos (..) O caso Madeleine McCann revelou que a polícia portuguesa é um bando de amadores estúpidos e - envergonhada, embaraçada e enfurecida - voltaram a sua raiva contra os McCann (…) Mesmo agora, os polícias portugueses tratam Kate e Gerry McCanns com uma grotesca falta de respeito. Questionado sobre se ele se importava que tivesse ofendido os McCann, Gonçalo Amaral disse a um repórter da BBC: "Não, que se f**** os McCann". Um acto de classe, daquele 'bófia' gordo, que tentou ganhar dinheiro com uma criança desparecida - e a tristeza sem fim dos seus pais ".




A BBC levou quase um ano para reagir e nunca pediu desculpas a Gonçalo Amaral. Só após dezenas de queixas de telespectadores, a “Editorial Complaints Unit” (ECU) - “Departamento de Queixas Editoriais” da BBC - analisou o caso e produziu uma conclusão branda, desculpando o repórter: “A percepção do jornalista, reforçada pelos outros membros da equipe do programa que viram a gravação, era de que Gonçao Amaral tinha, de facto, usado uma frase em inglês que incluía um termo ofensivo aplicado aos McCann. Num exame mais aprofundado, no entanto, ficou claro que Gonçalo Amaral falou em Português e que uma frase inofensiva foi mal interpretada. "

A decisão foi tomada? "No futuro, a equipe (da BBC) planeia usar intérpretes se as gravações das entrevistas não forem claras" ...

21.6.18

8.000 avistamentos de Maddie, em 10 anos e 10 meses, em 101 países: um fenómeno que deve ser estudado e analisado por académicos e especialistas

Avistamentos de Madeleine McCann em todo o mundo
De 3 de maio de 2007 até 27 de Março de 2018, um total de 8.000 supostos avistamentos de Madeleine foram registados em 101 países, da Argélia ao Vietname, de acordo com dados recolhidos pelo jornal inglês “The Sun”.
 
Madeleine McCann: avistamentos na Europa
Assim, durante quase 11 anos - mais exactamente 10 anos e 10 meses, o que dá 3,900 dias - houve 2 alegados avistamentos de Madeleine McCann todos os dias, em todo o mundo. Este é um fenómeno que merece ser estudado por académicos e especialistas.
Alguns casos são surpreendentes: na pequena ilha de Malta, 29 avistamentos foram registados, no mês seguinte ao desaparecimento de Maddie.
 
Distância entre Portugal e Malta, de avião
A distância mais curta entre Malta e Portugal é de 1.258 milhas. Se a viagem for feita de avião (a uma velocidade média de 900 km/hora) de Malta para Portugal, levam-se cerca de duas horas e vinte minutos.
 
Distância entre Lisboa e Malta - rota marítima
Por mar, a distância é de 1.497 milhas náuticas. Aos 10 nós de velocidade, num barco, demoram-se 6,2 dias para ir de Lisboa a Malta. O país é um dos menores do mundo e um dos mais densamente povoados. A sua população está estimada em 422.000 habitantes, espalhada por apenas 122 quilómetros quadrados, com uma densidade populacional de 1.562 pessoas por quilómetro quadrado (4.077 milhas quadradas), índice que ocupa o sétimo lugar no mundo.

7.6.18

Cães-pisteiros, a campanha contra Eddie e Keela e o artigo da “Vanity Fair” sobre Maddie

"Daily Mail", em 2005: "O cão-polícia que ganha mais do que o chefe da polícia"
Judy Bachrach é uma respeitada jornalista americana, colaboradora da “Vanity Fair”, uma revista popular, sobre o mundo do espectáculo, moda e temas da actualidade, publicada pela Condé Nast, nos Estados Unidos. Conheci-a na Praia da Luz, em 2007. Encontrou o meu blog ao “googlar” sobre o caso Madeleine McCann, entrámos em contacto e jantámos juntos.

Foi um jantar longo e o caso Maddie foi praticamente o único assunto. Contei-lhe tudo o que sabia e já tinha publicado, dei-lhe algumas "dicas" e chamei-lhe a atenção para a forma como os Media britânicos estavam a cobrir o o caso. Ela escreveu uma longa história, “Orações sem Resposta”, onde me cita e tem algumas palavras lisonjeiras, dizendo que eu escrevia um blog sobre Madeleine “com considerável autoridade”, e parecia ter “excelentes contatos junto da polícia”.

Li a história, algumas semanas depois de ser publicada. Voltei a ver o artigo, há alguns dias, durante uma pesquisa na Netr, e li-o novamente. Não sei como, mas passou-me completamente um detalhe, quando o li pela primeira vez. Judy Bachrach escreveu que “depois de Madeleine ter desaparecido, os moradores locais usaram os seus próprios cães, sob a orientação da polícia, que os acompanhou com cães especializados em detectar drogas” para tentar encontrar Madeleine. Judy cita Robert Tucker, responsável de um empresa de segurança em Nova York, que afirma saber muito sobre o trabalho de investigação da polícia, mas não conseguia imaginar "por que razão a polícia iria querer que alguém trouxesse seus cães para ajudar".

Fiquei surpreendido com isto. Nunca ouvi absolutamente nada sobre esse detalhe. E, no entanto, parece-me ser apenas uma questão de bom senso, certo? Faz algum sentido, para alguém, para um cidadão comum sem treino policial, pedir cães domésticos para ajudar a detectar e seguir o cheiro de uma criança que desapareceu? Cães domésticos não são capazes de fazer isso. Então, se isso é um absurdo total para qualquer cidadão comum, como é que poderia ser considerado por um polícia?

Judy Bachaach menciona que esses cães de estimação foram usados “sob a orientação da polícia, com cães farejadores de drogas". Nesse caso, já estavam na Praia da Luz algumas unidades K2, como os americanos se referem às unidades compostas pelo treinador e pelo respectivo cão-pisteiro. E isso é verdade, eles foram chamados por volta das 2:00 da manhã, e vieram do quartel de Portimão para a Praia da Luz. Mais tarde, às 4:00 da manhã, outras unidades K2 foram chamadas pelo comandante da GNR. Como é possível que polícias de uma unidade de cães-pisteiros, com treinamento específico sobre o uso de cães para procurar pessoas e drogas, possam pedir aos habitantes locais que tragam os seus cães para ajudar?

Não me surpreende que alguém tenha dado esse tipo de informação a Judy Bachrach, já que tantas coisas absurdas foram ditas e escritas sobre o caso. O que me surpreende um pouco é que uma jornalista experiente como ela não tenha feito as mesmas perguntas que eu fiz nos parágrafos anteriores, quando recebeu essa informação.

Os cães trazidos de Portimão eram cães de patrulha também treinados para rastrear pessoas e drogas. Mas por volta das 5:00 da madrugada, o comandante do grupo territorial das forças da GNR, com autoridade sobre a área do Algarve, após ter sido informado da situação, chamou uma unidade especializada de cães-pisteiros, sediada em Queluz, nos arredores de Lisboa. Esses cães são treinados apenas para detectar e seguir o cheiro de pessoas que tenham desaparecido. O comandante da GNR pediu que fossem enviadas várias equipas para a Praia da Luz. Toda esta informação está disponível, em inglês, no site “McCann: PJ Files”.

De Lisboa à Praia da Luz são mais de 300 quilómetros. As novas equipas de cães-pisteiros chegaram de manhã cedo - três policiais com quatro cães - e iniciaram as buscas imediatamente. Julgo que toda a gente que acompanhou o caso se lembra que Eddie e Keela pareciam cães domésticos. Eddie é um springer spaniel inglês, por exemplo. Cães farejadores não são apenas pastores alemães ou belgas malinois, raças habitualmene usadas como cães de patrulha, mas que também podem ser usados como cães-pisteiros, se forem treinados para isso. Estas duas raças de cães estão incluídas na lista das 10 raças com melhor olfacto e estão bem posicionados no ranking (quarto e sexto lugar) deste website especializado em cães.

Elementos da GNR, com cães-pisteiros, numa rua da Praia da Luz

Não sei que tipo de raça utiliza cria a unidade especial de Queluz. Mas podem utilizar outra raça, sem serem os pastores alemães ou os belgas malinois, tal como era o caso de Eddie e Keela, os “cães maravilha” que tinham asua própria página no site da polícia de South Yorkshire. É curioso que, desde há muito tempo, a ligação que eu coloquei, para aquela página vai dar a uma página em branco (*), embora o endereço ainda esteja visível e seja o mesmo que incluía uma espécie de “diário” sobre os famosos cães: https: // www.southyorks.police.uk/kidzone/dogdiary/thisweek.php

Será possível que as unidades especializadas K2, vindas de Queluz, usassem um tipo de raça que, como Eddie e Keela, também são cães de estimação comuns? Ter-se-á dado o caso de alguém ter visto esses cães com os polícias, ter tirado uma conclusão absurda – que eram cães, devido à sua raça, provavelmente pertenciam aos moradores locais - e tenha dado essa informação a Judy Bachrach?

De qualquer forma, “Orações sem Resposta” é uma óptima peça jornalística, muito bem escrita, bem pesquisada, com muitos factos, entrevistas, comentários e, como qualquer bom jornalista deve fazer, coloca muitas questões sobre o caso. Escrevi este post essencialmente como uma mensagem amigável para Judy Bachrach. Qualquer pessoa corre o risco de cometer erros no seu trabalho. Nós, jornalistas, estaremos mais "em perigo" de o fazer, devido a várias características do nosso trabalho, como, por exemplo, editores aos berros, na Redacção, porque ainda não acabámos de escrever o nosso artigo e estamos a atrasar o fecho da edição – algo que coloca uma enorme pressão sobre nós.

Eu próprio cometi dois erros, nos muitos posts que escrevi sobre este caso, desde 2007. Um desses erros foi realmente grande, quando confiei (sem verificar junto de outras fontes) numa informação que me foi dada por um colega que eu conhecia, há mais de 20 anos, com muito mais experiência de jornalismo do que eu e bons contactos em Inglaterra, onde tinha trabalhado, durante bastante tempo, também como jornalista.

(*) Uma busca no site da polícia de South Yorkshire sobre “cães”, “cães-pisteiros”, “Eddie”, “Keela”, não produz qualquer nenhum resultado. A página sobre os cães foi apagada, após a violenta reação de Gerry McCann, depois de Eddie e Keela terem dado indicações incriminatórias contra o casal, quando foram trazidos para a Praia da Luz. Ao mesmo tempo, alguns artigos publicadas em jornais britânicos começaram a lançar dúvidas sobre a fiabilidade desses cães-pisteiros, afirmando, entre outras coisas, que confiar neles era o mesmo que atirar uma moeda ao ar.

Antes de ser usada no caso McCann, Keela foi a “estrela” de uma reportagem publicada pelo “Daily Mail”, em 2005: “O cão-polícia que ganha mais que o chefe de polícia”, onde era elogiada a excelente capacidade do cão em “detectar” ínfimas amostras de sangue humano - mesmo em roupas, por exemplo, que já tinham sido lavadas. ”Martin Grime, o treinador de Eddie, num depoimento que está nos arquivos em DVD da investigação do desaparecimento de Madeleine, diz que os cães foram usado em cerca de 200 casos e nunca deram um “falso alerta”.

O chefe da Polícia de South Yorkshire, Meredydd Hughes com Keela

Martin Grime também é citado numa reportagem da BBC, que menciona um caso específico, em Jersey, quando “a polícia suspeitou que restos humanos teriam sido enterrados no local de um antigo orfanato (…) o springer spaniel fez parte da equipe de especialistas levada para investigar o caso. A polícia de Jersey disse que o cão, de sete anos de idade, detectou partes do corpo de uma criança, apesar de terem sido enterradas sob vários centímetros de cimento.

O jornal “The Sun”, em 5 de setembro de 2007, iniciou a campanha contra Eddie e Keela, com uma reportagem ciando um “especialis” anónimo que disse ao jornal que “os cães podem identificar traços de sangue, mas é loucura tirar conclusões importantes apenas a partir dessas indicações. Qualquer evidência que eles detectem deve ser usada como ponto de partida. É uma loucura confiar apenas naquilo que os cães-pisteiros assinalam ”, disse o chamado “especialista”, não identificado. A manchete de "The Sun" foi muito clara: "É uma loucura confiar em animais". É curioso, quase cómico, que o mesmo jornal tenha uma história, em Dezembro de 2005, sobre Keela, com a manchete: “O 'Sherlock Bones (Ossos) Nº1, do Reino Unido” (não disponível online).

Duas histórias do jornal "The Sun", sobre o mesmo cão, Eddie e o seu treinador, Martin Grime. A primeira foi publicada em 2005, a segunda em 2007

Depois dessa história, também em Setembro de 2007, o jornal “The Telegraph” (página não disponível on-line) surge com uma história diferente, mas no msmo sentido. “Os advogados de Kate e Gerry McCann entraram em contato com advogados norte-americanos, devido a um caso em que provas obtidas através de cães-pisteiros foram rejeitadas por um tribunal, na esperança de que isso pudesse ajudá-los a combater qualquer acusação de envolvimento na morte de sua filha”. Os advogados dos McCann, Angus McBride e Michael Caplan, “consultaram a equipe jurídica de Eugene Zapata, 68 anos, acusado de assassinar a sua esposa Jeanette, em 1976. Mas o juiz decidiu, no mês passado, que a prova não era mais fiável do que 'atrar uma moeda ao ar' e não poderia ser utilizada no julgamentoi", escreveu o jornal.

Gerry McCann, na única entrevista que deu a um jornal português, o semanário “Expresso”, também foi muito agressivo em relação à capacidade dos “cães maravilha”. Respondendo a uma pergunta sobre o facto de Eddie e Keela terem assinalado "traços de sangue no apartamento e no carro", Gerry afirmou que "não foi encontrado sangue" e disse que "aquela prova é inútil sem ser confirmada por análises forenses. E isso não foi feito”, acrescentou.

O pai de Madeleine McCan mencionou também que “a pouca fiabilidade desses cães foi comprovada num estudo realizado nos EUA, sobre um homem acusado de homicídio. Numa casa com dez quartos, foram colocadas, em cada um quarto, quatro caixas com legumes, ossos e lixo. Alguns tinham restos humanos. As caixas ficaramno local durante dez horas. Oito horas depois de levarem as caixas, vieram os cães. E os cães falharam em dois terços dos casos. Imagine a fiabildade de esse tipo de cães analisarem um apartamento, três meses depois de a criança ter desaparecido”, concluiu.

Eddie e Keela, de facto, tiveram em Setembro de 2007, aquilo que se se pode chamar uma vida de cão: num dia, eram os melhores cães-pisteiros do mundo, no dia seguinte, não eram mais fiáveis do que atirar uma moeda ao ar...

23.5.18

"Plea Bargain", uma "proposta" da PJ que só existiu para os McCann

Depois do interrogatório na sede da PJ, em Portimão, Philomena McCann, a irmã de Gerry lançou uma “campanha de desinformação”, citando Kate McCann: a polícia portuguesa ofereceu-lhe uma “plea bargain”, um acordo: “Se ela confessasse” ter morto acidentalmente Madeleine (…) e depois ter escondido o corpo e ter-se desfeito dele, então poderiam aplicar-lhe uma sentença de prisão de dois anos ou até menos ”, segundo o “The Telegraph”. Philomena McCann foi, inclusive, convidada para um debate sobre o caso, no programa “Larry King Live”, e disse, ao telefone: Se Kate “dissesse que matou acidentalmente Madeleine (…) ela teria uma sentença, sabe, muito reduzida, como dois anos ou até menos, mas isso é algo que ela nunca vai dizer, porque não há verdade nenhuma nisso ”, disse.


A “declaração” de Philomena McCann foi “confirmada” por Robert Moore, correspondente da ITN em Portugal, durante o mesmo debate: “Estou a ouvir o mesmo das minhas fontes aqui, essencialmente, é extraordinário como os investigadores portugueses lidaram com Kate McCann, em particular. Eles simplesmente disseram-lhe que se ela confessasse ter morto Madeleine, poderiam garantir que teria dois ou três anos de prisão. Eles até sugeriram que ela estaria livre novamente depois de um ano, e seria capaz de ver seus gêmeos crescerem ”, acrescenyou Robert Moore.


Enquanto isso, Philomena McCann continuou sua implacável campanha de “desinformação”, conversando com órgãos de Comunicação Social. Ela disse à Sky News “que a polícia portuguesa sugeriu que a sua cunhada acidentalmente matou Madeleine, escondeu o corpo e depois se descartou dele (...) Eu nunca ouvi nada tão ridículo na minha vida”, disse ela. Philomena McCann disse também à ITV News que a polícia portuguesa ofereceu a Kate McCann um acordo por meio de seu advogado.
O “Daily Mail” entrou em mais detalhes, citando o livro “Vanished”, escrito por Kate McCann: “A oferta de 'plea bargain' foi colocada aos McCann através do seu advogado, Carlos Pinto de Abreu. Ele disse-lhes que Kate McCann poderia ficar presa "apenas dois anos" se admitisse que Madeleine havia morrido em um acidente no apartamento, e confessasse ter escondido o corpo e, depois, ter-se desfeito dele." Kate McCann escreveu, no seu livro, de acordo com a citação do jornal: "Perdão? Eu não tinha a certeza se estava a ouvir corretamente. Eles realmente esperavam que eu confessasse um crime que eles tinham inventado, que alegassem falsamente ao mundo inteiro que a minha filha estava morta, e o resultado seria que o mundo inteiro parava de procurá-la?” (*)


O único problema é que a “plea bargain”, sistema amplamente utilizado nos Estados Unidos, simplesmente não existe no sistema jurídico português. A polícia não tem poder ou autoridade para propor, negociar ou sugerir sentenças de prisão, em troca de qualquer coisa que possa ser. Apenas num tribunal, em julgamento, os juízes têm o poder de decidir a sentença a ser aplicada. E, claro, eles levam em consideração todos os detalhes do caso.


A “campanha de desinformação” sobre a alegada “plea bargain” foi “morta” pelo próprio advogado português dos McCann, Pinto de Abreu. Talvez cansado e um pouco envergonhado (como advogado ...) de ver o seu nome envolvido naquele tipo de campanha, ele falou com a Imprensa, e foi claro, como o “The Guardian” referiu, na sua edição de 17 de setembro de 2007:


A polícia ainda estava a interrogar Gerry McCann quando já a sua irmã Philomena estava a dizer à Sky News que haviam oferecido a Kate McCann uma sentença reduzida de dois anos se ela admitisse ter matado a filha acidentalmente, escondendo o corpo e depois desfazendo-se dele (… ) Nessa altua, os policiais portugueses estavam furiosos e com certa razão. Como muitas outras coisas ditas sobre o caso McCann, nos últimos dias e meses, a história estava errada. Não houve oferta de nenhuma “plea bargain”. Tudo tinha sido "um mal-entendido", explicou o advogado dos McCann, Carlos Pinto de Abreu, no dia seguinte.”, escreveu o “The Guardian”.

(*) Editado às 00:47, 25 de maio de 2018 - Este é um detalhe que me escapou quando escrevi este post. O livro "Vanished" foi publicado em 2011. Kate McCann ignorou completamente o facto de o seu próprio advogado, ter negado publicamente, em Setembro de 2007, a existência da tal proposta de “plea bargain”. No seu livro, escrito quatro anos depois e publicado em 2011, Kate McCann repete a história fabricada sobre a "plea bargain" como se fosse verdade e não apenas mais uma campanha de desinformação dos McCann.

Uma situação estranha: quando um advogado pede à polícia para fazer uma pergunta ao seu cliente

Gerry McCann: "(...) era comum ela (Madeleine) sangrar no nariz".


"No final do interrogatório, em 7 de setembro de 2007, os detetives da PJ perguntaram a Gerry se Madeleine se teria ferido durante < sua estadia no Ocean Club. Gerry disse que não comentaria sobre isso. Depois que os detetives fazeram a última e formal pergunta - se ele teria mais alguma de a declarar - Gerry McCann disse que ele não via nenhuma evidência de que Madeleine estivesse morta, e que ele continuaria a busca, na esperança de encontrá-la viva".
"Quando a mesma pergunta formal - e usual - foi feita ao seu advogado, Pinto de Abreu, ele pediu que seu cliente fosse novamente questionado sobre se Madeleine tinha sangrado do nariz. Gerry respondeu e disse que Madeleine sangrava com frequência, pelo nariz, mas que ignorava se isso teria acontecido durante as férias em Portugal".

Baseado nas declarações de Gerry McCann à PJ (7 de setembro de 2007)

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Transcrição dos arquivos da polícia:"Quando perguntado se, em qualquer ocasião, Madeleine se tinha ferido, ele não fez nenhum comentário. No final do seu interogatório como arguido, o advogado de Gerry McCann disse que desejava que o arguido fosse questionado novamente sobre se Madeleine tinha sangrado do nariz. Gerry McCann respondeu que era comum ela ter sangramentos no nariz. Dca isse que não sabia se, de fato, sua filha tinha tido esse tipo de sangramentos duarante as férias em Portugal. "

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ARQUIVOS E DOCUMENTOS OFICIAIS DE INQUÉRITO
GERRY MCCANN DECLARAÇÃO COMO ARGUIDO - 07 SEP 2007

"O advogado de defesa disse que deseja que o arguido fosse questionado novamente sobre se Madeleine tinha sangrado do nariz. Ele disse ser comum Madeleine ter hemorragias nasais. Disse que não sabia se, de facto, a sua filha tinha sangrado durante as férias em Portugal e acrescentou que não queria ser influenciado pelas notícias na imprensa, sobre a detecção de sangue humano no apartamento onde a sua filha desapareceu".

4.2.18

"A GUERRA DOS MCCANN" - EM LIVRO DIGITAL (E-BOOK), DISPONÍVEL A PARTIR DE 28 DE AGOSTO DE 2018

Uma análise detalhada da campanha difamatória lançada pelos Media britânicos 
contra a Polícia Judiciária e as autoridades portuguesas