19.7.08

Quem se responsabiliza pelo 'caso Maddie'?

O camarada Henrique Monteiro, director do Expresso, também é conhecido pelo “Petit Larousse”, entre colegas de profissão. A alcunha veio-lhe da sabedoria enciclopédica que demonstrava, quando era apenas jornalista, aliada à sua baixa estatura. No caso McCann, Henrique Monteiro mostrou-se muito “Petit” e pouco “Larousse”. E revelou uma santa ignorância e uma ingenuidade pouco compatíveis com os seus anos de vida e lides jornalísticas, ao proclamar, do alto do seu “saco de plástico”, que “caso se provasse que o casal era culpado”, ele “perderia completamente a confiança na condição humana.”

Se o director do Expresso estivesse mais atento à realidade, perceberia que abundam, por esse mundo fora, casos de mães que matam filhos, filhos que matam pais e irmãos que matam irmãos. Escrevo estas linhas com o coração em frangalhos, receando que, se o acaso as levar ao conhecimento do Henrique Monteiro, ele se transforme num homem de pouca fé, desiludido e amargo, sem esperança na condição humana, como resultado do confronto com este mundo que ele, aparentemente, desconhece

Em Novembro de 2007, na cidade de Tucson, Jennifer E. Jansma matou o filho de oito anos. Em Maio de 2005, em Chicago, Nicole Harris matou o filho de quatro anos, porque ele não parava de chorar. Em Abril de 2007, em Maryland, um homem de 55 anos espancou a mãe até à morte. Em Março de 2001, na Bulgária, Daniela Terziiska, estrangulou o filho de três anos. Em Dezembro de 2006, no Alabama, Shalinda Kalika Glass matou o filho de cinco anos. Em Novembro de 2007, Linda Calbi espancou até à morte o filho de 14 anos, por este lhe ter pedido para desligar a televisão. Em Julho de 2008, em Las Vegas, Sherri Love esfaqueou até à morte a filha de sete anos e feriu o outro filho, de oito anos. Em Agosto de 2007, no Canadá, um adolescente matou a tiro a mãe, de 43 anos e a irmã, de quatro anos. Em Janeiro de 2008, na Flórida, um homem espancou até à morte a filha de quatro meses, porque preferia que a mulher tivesse dado à luz um rapaz. Em Fevereiro de 2008, na Geórgia, Anthony Tyrone Terrell, de 17 anos de idade, matou a mãe e duas irmãs, de 11 e 4 anos, respectivamente.

Americanices”, na sua larga maioria, dirá Henrique Monteiro, alcandorado no editorial do seu espesso jornal. Coisas que só ali acontecem. Mas na Escócia, Petrina Stocker matou o filho, colocando 13 colheres de sal no biberão de leite. Em Inglaterra, Danielle Wails matou o filho de quatro meses, pegou fogo à casa, e disse à polícia que tinha sido atacada por dois homens, que a ataram com o fio do telefone. Também em Inglaterra, Martina McHattie atirou ao chão o filho de seis meses e disse aos médicos que a criança tinha caído, acidentalmente. O bébé morreu no hospital, poucos dias depois.

Nada disto é novo. Reza a Bíblia que Caim deu o exemplo, matando o irmão Abel. A hipótese de Gerry e Kate McCann estarem envolvidos na morte da filha seria, para o director do Expresso, o fim do mundo. Do “seu” mundo, onde estas tragédias, pelos vistos, não existem. Porque ele assim o determina, presumo. Faltou-lhe explicar, no referido editorial, se a sua confiança na condição humana apenas tremelica quando estão em causa membros da classe média-alta britânica, loiros e de olhos azuis.

O mais desastroso de tudo, para o director do Expresso, terá sido o facto de a PJ ter transformado “em arguido (...) os pais de Maddie” e, ao mesmo tempo, ter enviado “sub-repticiamente para a opinião pública sinais de uma conjectura que foram dando como se estivesse provada: que a menina tinha morrido e que os pais tinham ocultado o cadáver.” Se o director do Expresso olhasse cá para baixo, para o mundo real, de vez em quando, saberia que, nos Estados Unidos, por exemplo, 77% das situações de abusos (violência física, abusos sexuais, abusos emocionais e negligência) detectadas pela autoridades, são praticados pelos próprios pais. Em 11% dos casos, são outros familiares das crianças. Em Inglaterra e no País de Gales, em 2002, cerca de 80 % dos autores de homicídios de crianças foram os próprios pais.

Henrique Monteiro diz-se feliz por não ter perdido a sua confiança na condição humana. Mas diz ter passado a desconfiar da Polícia Judiciária – uma polícia que não investiga, apenas faz conjecturas, escreve ele. Polícia incompetente, portanto. Uma polícia que tem “certas pessoas” que se sentem mais juízes que investigadores. O director do Expresso coloca nesse mesmo saco “certos jornalistas, para quem a verdade é o que lhe diz uma fonte da polícia, ainda que o bom senso contrarie a lógica dessa pretensa verdade.”

O bom senso, neste caso, é o bom senso dele, Henrique Monteiro. Porque aquilo que não estiver de acordo com o seu bom senso, pelos vistos, não será bom senso. Serão “conjecturas”, “mito”, “arrogância” ou “desastre total.” E toda essa “gente” que não partilhe o bom senso, com odor a infabilidade papal, do director do Expresso, é “gente mesquinha, pequena, sem qualquer grandeza.”

Felizmente, temos o Henrique Monteiro. Que não é mesquinho, não faz conjecturas, não alinha em mitos, é a modéstia em pessoa, tem bom senso e, embora pequeno de estatura, exala grandeza por todos os poros. Travestido de inspector da Polícia Judiciária, perito forense, especialista em análises genéticas, treinador de cães-pisteiros, juiz de Instrução Criminal e magistrado do Ministério Público, o director do Expresso já investigou a investigação e proferiu um despacho lapidar: “O chamado 'caso Maddie' foi um desastre.”

Quando acabei de ler este editorial, lembrei-me logo das conferências de Imprensa do Clarence Mitchell, dos vídeos do Jon Corner, das acusações desbocadas da Philomena McCann, das entrevistas do Gerry e da Kate, dos artigos de opinião do Tony Parsons, das reportagens da Lori Campbell, dos “directos” do Martin Brunt e da vivacidade e entusiasmo das intervenções televisivas do dr. Rogério Alves. Coitados. Perante isto, são uns meros aprendizes de feiticeiro.

3 comentários:

Cláudia disse...

Paulo, brilhante. Há quem se venda por pouco. E depois, há quem nem sequer se venda. Há quem seja 'pequenino', mesquinho, e 'baixinho' por natureza.

Shu/Outono disse...

Como é aquel ditado português:
" homem pequenino ou bailarino?

Não me lembro do 1º adjectivo.
A idade não perdoa.

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As Suas palavras que vou copiar para aqui,estão no contexto que exige o texto.

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Mas, P.R. é uma Pessoa que "Escrevo estas linhas com o coração em frangalhos"...

Que sofre para dentro e sofre muito com tanta miséria, com todas as misérias.

Um abraço,MCR.

Shu/Outono disse...

http://www.liveleak.com/view?i=dc2_1200107782( a criança que foi espancada até à morte porque a besta queria um rapaz).

Todos os casos que descreve são terríveis,terríveis.

Eu fui espancada violentamente aos 8 meses e a Minha Mãe e Tia (irmã do monstro)não se atreveram a interferir; a violência era tão atroz que tiveram medo de se meterem porque ele assim poderia ter assassinado o bébé que era eu (uma birra de bébé).Quando a minha irmã nasce, o monstro sai intempestivamente de casa porque era outra rapariga.Teve uma série de rapazes a seguir,mas mesmo assim era de uma violência atroz para com dois deles. Ficaram ambos marcados de modo diferente: 1 criou 1 mundo à parte; o outro vive com o sindroma do carrasco e da vítima. Só aprecia e copia a besta.

Desculpem esta expurga.
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E um caso,de há anos no Restelo:

o papá pedia à filhinha para se vestir de capuchinho vermelho.Depois brincava ao lobo mau(vou-te comer...). A Mulher durante uns tempos não conseguia acreditar no que via.Depois começou a acreditar e a ficar doente quando o papá pedia à menina.Felizmente divorciaram-se. Nada mais sei,pois infelizmente li o caso.